Entre Picolés e Parangolés, minha contribuição ao blog!
Transgressão dos sentidos (o suprassensorial); superação das formas (do geométrico à perspectiva, do plano ao espaço, do rígido ao maleável); negação do instituído (e das Instituições); espectador participante (Bólidos, Penetráveis e Parangolés); abstração do espaço (arte como proposição de ambiência); sincretismo de referências (Nietzsche e Mangueira).
São muitos os nós que atam a obra de Hélio Oiticica ao pensamento crítico do Situacionismo. A conceituação da arte de Oiticica é quase a reprodução do discurso situacionista, sendo possível fazer a associação da obra do artista como a materialização da teoria do grupo crítico francês.
Uma discussão mais aprofundada acerca das relações possíveis entre Oiticica e os Situacionistas demandaria um bom conhecimento das produções dos dois lados. Se, de um lado, tivemos uma aula cheia de explanações, de outro temos uma vaga idéia de um movimento do pensamento radical que jogou pólvora na explosão de 1968.
Sem a pretensão de explicá-lo literalmente (pois ele se recusa a explicações!), e consciente de que um resumo será um reducionismo de seu sentido, vou tentar fazer uma sinopse do que foi o Situacionismo, mas sugiro que vocês não confiem em mim e que busquem outras leituras sobre o tema.
O Situacionismo foi um “ismo” do século XX que se opunha ao status quo do mundo capitalista, mas se opunha também aos tantos outros “ismos” críticos de sua época. Formou-se como uma dissidência radical da Internacional Letrista, que já propunha na década de 1950 a "reunificação da criação cultural de vanguarda e da crítica revolucionária da sociedade". O grupo era composto por amigos, das mais diversas procedências intelectuais: filósofos, arquitetos, artistas e outros boêmios. Eles questionavam fundamentalmente a “arte-mercadoria” e o consumo, e seus debates giravam como satélite em torno da cultura que orbitava em volta da (re)produção da sociedade capitalista. A crítica vem no sentido da proposição de um outro cotidiano, cabendo à “arte” a sensibilização para outra realidade.
Ainda sob o título de Letristas, o grupo produzia coletivamente uma revista que era distribuída livremente pelas ruas de Paris, chamada Potlatch. O primeiro artigo da revista de número 14 é intitulado “A Linha Geral” e começa dizendo:
“A Internacional Letrista se propõe a estabelecer uma estrutura apaixonante da vida. Nossas experimentações de comportamentos, de formas, de arquitetura, de urbanismo e de comunicação propõem a criação de situações provocativas”
Aí vão dois trechos de artigos publicados na Potlatch e em seguida uma citação de Hélio Oiticica:
“... Os funcionalistas ignoram a função psicológica da ambiência... (ignoram também) o aspecto das construções e dos objetos que nos envolvem e que nós usamos independentemente de seu sentido prático” (“Une architecture de la vie” – Potlatch nº15)
“(...) a próxima subversão da sensibilidade não pode mais se conceber no plano de uma expressão inédita de fatos conhecidos, mas no plano da construção consciente de novos estados afetivos.” (“Le Grand Sommeil et Ses Clients” – Potlatch nº16)
“(...) não quero e nem pretendo criar uma ‘nova estética da anti-arte’,pois já seria isso uma posição ultrapassada e conformista. Parangolé é uma anti-arte por excelência; inclusive pretendo estender o sentido de ‘apropriação’ às coisas do mundo com que deparo nas ruas, terrenos baldios, campos, o mundo ambiente, enfim – coisas que não seriam transportáveis, mas para as quais eu chamaria o público – seria isso um golpe fatal ao conceito de museu, galeria de arte, et., e ao próprio conceito de exposição – ou nós modificamos ou ficamos na mesma. Museu é o mundo, é a experiência cotidiana” (Oiticica, “Aspiro ao grande labirinto”, 1966).¹
Por essas três citações invocadas, podemos fazer uma leitura da aproximação entre as intenções de Oiticica e dos Situacionistas. Mas foi na internet que encontrei a argumentação da minha certeza:
“A partir de sua estadia em NovaYork, Oiticica se aproximou ainda mais do pensamento situacionista, ele passou a citar Guy Debord em vários de seus escritos e chegou a propor um Penetrável (P12) com textos escritos e declamados retirados do clássico de Debord, A sociedade do espetáculo (1967)” em
E na dissertação de pós-graduação de um sujeito da Bahia, encontrada em algum lugar do sistema solar google, e intitulada “...Sobre homens invisíveis: interferências ambientais” (PITON, Salvador, 2004), muitas e muitas relações interessantes entre os dois são abordadas. Em
Agora eu fico por aqui, mas aqui ficam idéias e citações para serem apropriadas pelas livres associações de cada um. Como as roupas-abrigos-parangolés, façam o que quiserem com elas!
¹ Essa citação responde à questão do que Hélio acharia de sua própria exposição: ele intentou ao assassinato do próprio conceito de exposição! Se ele soubesse que, ainda por cima, não se trata de um museu exatamente, mas de um braço cultural de uma instituição financeira, e que suas obras sensíveis estão dentro de caixas de acrílico, Hélio se auto-expulsaria de sua exposição!
Como bem disse a Olyvia: “O Hélio até exibiria suas obras aqui, mas no meio da Avenida Paulista!”.
Saludos a todos!
Rachel