Antes de tudo, estas informações servem como base, ou ponto de partida para tentar entender a relação do individuo brasileiro em seu meio.
Os exemplos vão da literatura à música, ao cinema e às artes plásticas, e onde se combinam manifestações eruditas com manifestações da cultura popular e de massas. Ressaltando com isto, certo caráter mesclado da singular cultura brasileira – com uma certa vocação para cruzar ou dissipar fronteiras – o que não deixa de ser um traço antropófagico .
Por tanto, pareceu interessante me basear no texto «Como explicar el arte contemporáneo brasileño a un publico internacional II» de Tadeu Chiarelli. Neste texto Chiarelli reflete acerca desta posição externa e tenta mostrar uma arte brasileira que foge dos estereótipos, uma arte coerente com sua realidade. Para isto expõe uma visão exótica que o público internacional possui do Brasil – paraíso tropical, habitado por um povo sensual, alegre e despreocupado, marcado pela violência – em contraposição com a imagem que o próprio país criou para si mesmo no decorrer de sua historia. Rompendo, assim, com as noções mais aceitas de Brasil e buscando revelar olhares que tenham um sentido mais profundo, que demonstrem uma relação coerente entre o individuo brasileiro, seu meio e sua forma de representar, o reagir a este ambiente.
Para entender de uma maneira geral o que ocorre com o individuo brasileiro Chiarelli desenvolve o conceito de desidentidade . O caracteriza como o processo pelo qual vem passando a sociedade e o individuo brasileiro. Um processo “evidenciado pela crise que passou o Brasil no seu problemático ingresso ao âmbito da modernidade. Intensificado no período posterior à segunda guerra mundial, a crise piora a partir do golpe militar de 1964 e cresce ainda mais nos governos subseqüentes, apesar dos intentos falidos para superá-la.”
Chiarelli relaciona o processo de desidentidade com a busca falida da identidade do brasileiro. Um esforço que brotava, por um lado, da classe artística, como um resgate das origens, evidenciado principalmente no modernismo. E também, por outro lado, como um esforço muito forte, por parte das instancias do poder, para tentar estabelecer uma identidade brasileira “controlável”. Para isto, interessava apropriar-se e divulgar alguns ‘mitos’ que foram sendo criados ao largo da historia.
Podemos encontrar o primeiro deles na origem romântica que começou a difundir-se em clássicos da literatura brasileira do século XIX, como O Guarani , de José de Alencar. Este ‘mito’ se relaciona com a configuração do brasileiro típico, possuidor de todas as qualidades positivas da população: o indígena. A compreensão da figura do índio como símbolo de Brasil e de todos os brasileiros – o guerreiro aguerrido e viril, ao mesmo tempo dócil e com tendência à submissão do poder do colonizador branco continuou, apesar da oposição de críticos e artistas, até depois de 1964 e foi assumida em grande parte pelos donos do poder ditatorial.
Um segundo ‘mito’ alimentado más adiante pelas instancias de poder local, foi o da projeção da grandiosidade que o país alcançaria se aderisse ao modelo de crescimento industrial, dentro dos moldes capitalistas. Tal postura gerou, durante o crescimento visível da cidade de São Paulo, o sonho da transformação do país. Não percebendo, ou fingindo não se dar conta de que, por trás do aparente apogeu haviam enterrado severas contradições acerca da sociedade brasileira.
Dentro desta realidade elaborada e alimentada por “mitos” inalcançáveis, escolhi artistas, vinculados a movimentos – antropofagia, concretismo, neo concreto, tropicália – para entender quais foram seus obstáculos e as estratégias encontradas em seu tempo. Como forma de esclarecer e compreender a realidade atual diante do desmoronamento das utopias concebidas durante o século XX. Olhar para estes movimentos possibilita outras formas de compreensão do difícil projeto de emancipação política y social do Brasil e da realidade resultante a se enfrentar hoje em dia.
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