(Même si on a déjà parlé sur le situacionism ici au blog)
Discutir “arte e política” hoje, seja por uma perspectiva histórica ou teórica, necessariamente coloca em pauta os temas elaborados pelo pensamento da Internacional Situacionista, da década de 1960. Tanto que Miguel Chaia, em sua palestra, pontuou o situacionismo em vários de seus argumentos, defendendo a acepção de arte política como propositora de outras situações, como linguagem emancipatória de uma cultura hegemônica. Tratando do situacionismo, Chaia invocou seu principal autor, Guy Debord, e é sobre Debord e suas idéias que quero falar um pouco aqui nesse post.
As formulações situacionistas consagradas traziam o fetiche da mercadoria de Marx como fundamento da “Sociedade do Espetáculo”, sendo a cultura uma construção do capital em sua forma-imagem. Foi Guy Debord quem defendeu que a superação da arte como espetáculo não tratava de criar novas estéticas para velhas concepções, mas de construir uma nova sensibilidade, uma outra percepção, ou, como defendeu o próprio, “novos estados afetivos”.
Assim Debord faz a crítica ao espaço público da cidade moderna, normatizado tanto em seu uso quanto em suas formas arquitetônicas e espaciais. Em contraponto, ele concebe uma cidade de fruição, de experimentação de novas “situações”, de outra sociabilidade. Mais do que a superação das formas, seria a superação de seus conteúdos.
Tais concepções de Debord aparecem desde seus escritos em Potlatch, a publicação dos Letristas – grupo que deu a luz ao situacionismo – , na década de 1950, até a publicação de sua obra mais conhecida, “A Sociedade do Espetáculo”, de 1967. O que vemos em seus textos a partir daí, inclusive em seus “Comentários sobre a Sociedade do Espetáculo”, de 1988, são reflexões críticas acerca do pensamento situacionista, talvez não sobre seus fundamentos, mas sobretudo em relação às suas proposições e desdobramentos.
Falou-se, naquela discussão no Porão das Artes, de Maio de 68 como a “grande obra de arte situacionista” (deixo a citação em aberto, pois não sei o nome do sujeito que a declarou). De certo, já se fazia um ano desde a publicação de “A Sociedade do Espetáculo”, e os estudantes franceses se debruçavam sobre os aforismos de Debord para construir as bases teóricas daquelas manifestações que marcariam o século XX. Criticava-se, em discurso, uma sociedade cujos valores não eram outros senão os valores da mercadoria, uma ideologia de consumo alienante que se alargava a todas as esferas da vida cotidiana. As insurgências nas ruas de Paris, por outro lado, marcaram um fato histórico que não superou o “Espetáculo”, e essa é uma consideração do próprio Debord: “as alterações de 1968, não derrubaram em nenhum lugar a organização existente da sociedade, donde o espetáculo brota como que espontâneamente; ele continuou, portanto, a reforçar-se de todos os lados” (1988). Isso porque, aquilo que se pretende revolucionário, mas não supera o que está dado, acaba, no limite, arraigando ainda mais as forças contra as quais se luta.
Tal raciocínio, de espírito crítico, leva Guy Debord afirmar que “não há arte possível”, em um momento de seu pensamento que questiona a efetividade das “situações” propostas por ele anteriormente. Uma “arte possível” não seria possível pois no momento em que esta se realiza, logo, senão imediatamente, ela é apropriada pela lógica da ideologia instaurada, que a funcionaliza, e a coloca na ordem da reprodução da sociedade capitalista. Em outras palavras, essa arte se torna impossível na medida em que ela é cooptada pelo sentido do espetáculo, e não há nada que ela contenha em si que possa superar as determinações – objetivas e subjetivas – de uma sociedade consumidora já consumada. Debord percebe cada vez mais a arte reificada, e isso o atinge tanto que ele passa a questionar o significado de sua própria obra, e vive essa contradição tão intensamente que se suicida em novembro de 1994.
E nós, como ficamos? Se o sujeito que nos deu a perspectiva da arte como “o outro possível” de uma sociedade espetacularizada, que inspirou momentos idílicos como Maio de 68, que propôs uma “nova sensibilidade” como meio de superação de uma cotidianidade extremamente coisificada, no fim, acabou por se matar de desilusão?
(Eu, Rachel, realmente não sei o que pensar disso)
"Societé du Spetacle" - o filme. 1973, dir: Guy Debord.
Parte 1 de 9.

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