"No fundo do mato virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era negro retinto e filho do medo e da noite"
Mario de Andrade
Segundo José Miguel Wisnik essa peça lúdica, com traços infantis e perversos poliforma da história nacional podem ser entendidos como um movimento de libertação do colonizado, que inverte anarquicamente as versões oficiais, apropriando-se delas e imprimindo outros sentidos onde a experiencia coletiva inconsciente saia para a superfície. Assumindo abertamente o que existe de rebaixado e falso na história do colonizado, encaramos uma representação da história mais trágico carnavalesca que épica.
Macunaíma, “Mário de Andrade e a construção da cultura brasileira”
Resumo da Palestra de José Miguel Wisnik, professor de literatura da USP.
Ele afirma que não se pode separar a arte de Mário de Andrade da experiência que ele viveu: São Paulo se desenvolvendo nos anos 1920-30.
Mario de Andrade representa a velocidade e a simultaneidade e quebra com a arte que até então havia sido feita, a arte tradicional, para criar uma arte moderna. Ele era músico e utilizava seus conhecimentos de música na literatura, sua linguagem, assim como São Paulo, é simultaneizada e múltipla, “antropofágica” (apreende tudo que é exterior e a partir disso cria algo que é próprio e singular). Para Mario de Andrade, a poesia, assim como a música, devia ser polifônica, rompendo com a linearidade, sua poesia é uma sobreposição de imagens.
Wisnik continua afirmando que a modernização da cultura brasileira passou pela Bahia no séc. XVII, Minas Gerais no séc. XVIII, Rio de Janeiro no séc. XIX e São Paulo no séc XX. Afirma que Mario de Andrade teve dois momentos, no primeiro momento, ele adota uma visão cosmopolita do Brasil, e no segundo momento, propõe a nacionalização da cultura brasileira.
A base para isso ele encontra na cultura popular (anônima e coletiva), que seria um fundo perdido da cultura brasileira que o artista deve resgatar, redescobrir; pois para Mario de Andrade existem dois “Brasis”, um escrito, erudito e europeu e outro iletrado, popular e nacional, e ao artista caberia a responsabilidade de unir estes dois “Brasis”.
Segundo ele, a música popular é a maior riqueza do Brasil, pois foi construída através dos séculos.
Ao Macunaíma, Mario de Andrade chamou rapsódia, e não romance, pois foi baseado em musicas, cantigas, lendas e ditos populares. O personagem Macunaíma inclusive já existia em lendas indígenas.
Macunaíma precisa vir a São Paulo para recuperar muiraquitã do monstro gigante mascate ítalo-peruano Venceslau Pietro-Pietra, que já havia morado no Pernambuco e era piaimã. Macunaíma não tem pai, como muitos outros heróis e semi-deuses. Ele nasce fruto da mãe com a escuridão.
O fato do muiraquitã, que é mágico, ser roubado por um comerciante e transformado em mercadoria no seu mercado-museu, representa(ou reflete) a tendência real de toda forma de arte ir sempre parar nestes dois lugares: mercado e/ou museu.
No Brasil, as maiores criações saem da mistura do público com o privado e as maiores sacanagens também, porque, segundo Sergio Buarque de Holanda, também modernista, “O Brasil é marcado pela mistura do público com o privado”
Ao final do livro, Macunaíma não agüenta a realidade do Brasil (do mundo/ da vida) e transforma-se em estrela, para viver para sempre do lado de sua amada Ci, a mãe do mato.
11 maio 2010
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http://www.youtube.com/watch?v=QduPWn4CPx0
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